Terra Madre Brasil - Rede nacional de ecogastronomia

12.05.08

Centralidade dos Alimentos

por Editor


Escrito por Carlo Petrini

Qual é o valor dos alimentos? As coisas cotidianas muitas vezes, precisamente pela sua presença constante nas nossas vidas, tendem a ser subestimadas. Apercebemo-nos apenas quando se apresenta um elemento de crise, quando os nossos hábitos se alteram.

Quem luta todos os dias por procurar alimentos não precisa de discursos sobre a importância da centralidade dos mesmos nas nossas vidas: deve fazer contas cada vez que o sol se ergue. A abundância no entanto – ou melhor, o hábito da abundância – não permite a muitos viverem conscientes do fato que os alimentos não são apenas uma questão de sobrevivência, mas a expressão do que somos, da nossa sociedade, o reflexo ou a causa de pequenos e grandes problemas que nos rodeiam.

Desde que a indústria agro-alimentar se afirmou como nosso principal fornecedor esta consciência desapareceu, entregue nas suas mãos, para a transformar em fonte de lucro. Mas o lucro não segue as regras da natureza, e esta incompatibilidade está se tornando um fator de insustentabilidade explosivo.

Um outro valor dos alimentos, neste caso “econômico”, está a incrementar: o preço do trigo aumentou como nunca, os aumentos de consumo de carne em nível global (em países que não estavam habituados a ter esse estilo alimentar) e o boom dos biocombustíveis estão entre as principais causas de um aumento de preços que não dá sinais de descida e que começa a criar tensões sociais tanto no Norte quanto no Sul do mundo.

Isto aconteceu porque nos esquecemos do valor do ato de nos alimentarmos e do que representa. O seu caráter sagrado foi menosprezado, baixando ao nível de um qualquer produto de consumo que segue as regras de uma economia de mercado anti-natural.
Recolocar a alimentação no centro das nossas vidas é um ato de grande responsabilidade, para além de ser um favor que fazemos a nós próprios. Significa começar a pensar juntos, aprender a partilhar saberes e a agir conscientes de um destino global. Um destino que parte do nosso íntimo: do que decidimos colocar no prato, das sementes que escolhemos plantar nos nossos campos. São necessárias novas responsabilidades, derivadas de uma renovada centralidade da alimentação nas nossas vidas: as comunidades do Terra Madre sabem disso muito bem e é o que a Rede Terra Madre tem o dever de fazer o resto do mundo entender.

Carlo Petrini é o Presidente Internacional do Slow Food. Este texto foi publicado no editorial da Newsletter Terra Madre.

Deixe um Comentário

Obrigatório

Obrigatório, (não aparecerá no site)

Quero acompanhar por email os comentários desse post.

Algumas tags de HTML permitidas:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Inscreva-se para acompanhar os comentários via RSS Feed

<< Texto anterior: Terra Madre 2008
Próximo texto: Os Encantos de Maracá >>