Terra Madre Brasil - Rede Nacional de Comunidades do Alimento

17/08/2010

A farinha de Dona Rosa e o Berbigão de Seu Aristides

Texto de Fernando Angeoletto

Saiba mais sobre a participação de algumas das comunidades de projetos de Santa Catarina no II Terra Madre Brasil

Dona Rosa embarca, toma assento e em pouco tempo encanta comissários e a tripulação, tamanha é sua simpatia e tão doce o seu semblante. É a primeira vez que viaja de avião. “Sempre olhava pra cima e dizia que aos 60 anos eu ia viajar naquilo”, conta ela que, aos 53, estava realizando o sonho de voar. O rumo é Brasília. Na capital federal, dona Rosa Nascimento, produtora artesanal de farinha de mandioca do litoral catarinense, foi encontrar centenas de produtores como ela, trocar experiências, estabelecer contatos comerciais. Protagonista da gastronomia tal qual um chef de cozinha, dona Rosa é expressão da máxima “Comer é um ato agrícola”, um dos pensamentos essenciais do Movimento Slow Food.

Brasília sediou, de 19 a 22 de março de 2010, o II Terra Madre Brasil. É o maior evento realizado no país pelo Slow Food, concebido para aproximar e tecer relações diretas entre os agricultores, os chefs de cozinha e todos os elos envolvidos no ato (e no hábito) de comer. A grande Florianópolis teve participação variada no evento, com membros de Convivium, representante de produto da Arca do Gosto, chefs e o coletivo da Revolução dos Baldinhos, além da equipe técnica do Cepagro.

Em termos gastronômicos, podemos dizer que a presença de Floripa teve o sabor de berbigão com farinha – e todas as suas variações. O Sr. Aristides, um dos fundadores da RESEX (Reserva Extrativista) do Pirajubaé, esteve lá para dar o recado sobre o seu ambiente de coleta explorado por 25 famílias, e ameaçado pela expansão urbana. O molusco berbigão, ao lado de outras 20 matérias-primas genuinamente brasileiras, integra a Arca do Gosto do Slow Food, beneficiando-se de ações que atentam ao risco de sua extinção.

No Terra Madre, 2 deliciosas versões do molusco foram preparadas pelo chef Ubiratan Farias, do restaurante Villa Açor (São José), durante a degustação de produtos do bioma Mata Atlântica. Dona Rosa e sua colega Inácia, que mantém engenhos artesanais de farinha em Três Barras (Palhoça, SC), participaram de mesas-redondas e compartilharam algumas de suas preciosidades, como os bijus e a bijajica. Foi também a oportunidade de dona Rosa conhecer pessoalmente a chef Tereza Corção, do Instituto Maniva. Apesar de nunca terem se encontrado, elas tinham relação a partir do Convivium do Slow Food Engenho de Farinha. Parte da farinha de Rosa, numa relação comercial solidária e direta, é vendida ao restaurante de Tereza, que fica no Rio de Janeiro.

O Terra Madre deste ano teve uma importante aliada ambiental, através de outra contribuição da região de Florianópolis. Harmonizando o ciclo que começa na produção limpa e justa dos alimentos, passando pela consciência dos processos por quem transforma a matéria-prima, a reciclagem de 100% dos resíduos orgânicos do evento trouxe a marca da sustentabilidade ao Movimento Slow Food. O trabalho ocorreu graças ao coletivo da Revolução dos Baldinhos (Lene, Karol e Maicon), que deram oficinas e organizaram a compostagem das sobras geradas na cozinha, onde foram preparados almoço e jantar para 500 pessoas durante 4 dias.

Não há como desconsiderar o volume de sobras e a energia desperdiçada em toda a cadeia gastronômica. O italiano Carlo Petrini, fundador do Movimento Slow Food internacional, sabe disso muito bem: “o Mundo faz comida para 12 bilhões, embora sejamos 7 bilhões. Devemos acabar com o desperdício”, lembrou ele durante entrevista coletiva concedida no Terra Madre. Por este motivo, Petrini enalteceu as ações de reciclagem da Revolução dos Baldinhos, durante sua fala no encerramento do evento. Após conhecer o processo de compostagem, ele afirmou que pretende levar o coletivo de Florianópolis para disseminar a técnica no encontro mundial do Slow Food na Itália.

Petrini, cuja imersão no mundo gastronômico iniciou com a prática do jornalismo, é “uma das 50 pessoas que podem salvar o Mundo”, de acordo com lista divulgada pelo jornal britânico The Guardian em 2008. Por trás do controle do ritmo de vida e da ecogastronomia aperfeiçoada, a filosofia posta em marcha por Petrini e o Slow Food prega que alimentos provenientes de exploração humana ou empreitadas que arruínem culturas e o meio-ambiente devem ser sistematicamente rejeitados. “É uma revolução doce e tranqüila”, explica ele durante a entrevista, enquanto desfia ideias sobre fortalecimento das economias e gastronomias locais, soberania alimentar, direito de plantar, colher e comer. São essas as ferramentas para contornar os obstáculos da atual crise do consumismo insustentável, uma “crise entrópica, que não traz em si suas próprias condições de superação, mas sim a perda de sentidos”, segundo Petrini. Ele conclama a darmos um basta ao colonialismo gastronômico, e agirmos como co-produtores dos alimentos, buscando aproximação com os agricultores e a ciência dos processos. “Quem semeia utopia colhe realidade”, prega Petrini em expressão de sua austera anarquia, conduzindo a fraternidade do Terra Madre em sua constante missão de mudar as malfadadas regras do consumismo em nível mundial.

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Texto de Fernando Angeoletto / Cepagro

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